Enquanto o governo Lula começa a discutir uma possível retaliação aos EUA, 16 empresas e
associações vão defender o Brasil em audiência coordenada pelo USTR
Enquanto o governo Lula começa a discutir uma possível retaliação aos EUA por causa do
tarifaço, empresas brasileiras vão fazer uma ofensiva na capital americana, Washington, a partir
desta semana, para tentar reverter uma nova punição aos produtos brasileiros por meio de
investigação aberta pelo Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), órgão
ligado à gestão Donald Trump. Apesar da mobilização, algumas entidades já reconhecem que
dificilmente haverá margem para reverter esse quadro.
Ao todo, 16 empresas ou associações brasileiras de diferentes segmentos se inscreveram para
participar da audiência coordenada pelo USTR. A sessão é parte do processo de investigação que
os EUA estão conduzindo contra o Brasil em seis frentes por causa de supostas práticas
“discriminatórias”: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico (Pix); tarifas injustas e
preferenciais; fiscalização anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; etanol e
desmatamento.
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As sessões de audiência estão previstas para ocorrer a partir de 3 de setembro, quando, além das
empresas brasileiras, serão ouvidos também representantes do setor privado americano. Esta
etapa tem como objetivo justamente dar espaço para que o segmento produtivo se posicione
sobre eventuais sanções.
Uma das entidades inscritas para participar desse processo é a Confederação Nacional da
Indústria (CNI), que será representada na audiência pelo ex-diretor-geral da Organização Mundial
do Comércio (OMC) Roberto Azevêdo. Experiente negociador, o diplomata acredita que, pelo fato
de o USTR ser um órgão ligado à Casa Branca, a investigação tem como propósito dar amparo
jurídico para as sanções adotadas por Trump, caso essa contenda vá parar no Judiciário
americano. Portanto, são pequenas as chances de o lado brasileiro reverter a situação.
“A margem [para reversão] é reduzidíssima, até porque um dos propósitos da investigação é
oferecer base jurídica para a imposição das tarifas nas Cortes americanas, pelo próprio
fundamento frágil da decisão [de Trump]. Elas [tarifas] estão assentadas numa lei de emergência e
a probabilidade de não se sustentarem nas Cortes dos EUA, diante de questionamentos de
empresas, é bastante razoável. O objetivo [deles] é ter uma espécie de amparo [jurídico]”, explicou
Azevêdo em entrevista ao Valor.
São pequenas as chances de o lado brasileiro reverter a situação”
— RobertoAzevêdo
01/09/2025, 08:13 Empresas vão a Washington tentar evitar novas punições | Brasil | Valor Econômico
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Apesar disso, o ex-diretor da OMC contou que pretende utilizar seus minutos de exposição na
audiência para enfatizar ao USTR que a adoção de medidas restritivas tende a enfraquecer o
potencial da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos. “O que a gente vai mostrar [ao
USTR] é que, em nenhuma dessas seis áreas [investigadas pelo órgão], existe arbitrariedade ou
discriminação contra o produto americano. A segunda parte é dizer que precisamos ir além das
questões jurídicas e entender o potencial de relação entre Brasil e EUA. Devemos explorar essas
áreas de cooperação, hoje abaixo do seu pleno potencial, em vez de ficarmos adotando
contramedidas e medidas restritivas”, defendeu.
Os documentos entregues pelas entidades brasileiras ao USTR, como parte da argumentação
que será feita, mostram também que o setor privado nacional vai procurar enfatizar que as
políticas comerciais, ambientais e de propriedade intelectual do Brasil estão em conformidade com
as regras internacionais, ao contrário do que pressupõe Trump.
Este é o caso, por exemplo, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA),
entidade que se inscreveu para defender o Brasil. A UNICA deve sair em defesa do setor de etanol
brasileiro, um dos alvos do USTR, e enfatizar a conformidade com as regras da OMC.
Outro ator envolvido nessa discussão é a Embraer, empresa brasileira que exporta principalmente
aeronaves para o mercado americano. A companhia deverá focar sua apresentação
principalmente no histórico de integração e de benefícios entre os dois países. A empresa destaca
nos documentos públicos entregues ao USTR os “enormes benefícios líquidos” que a Embraer e
suas afiliadas nos Estados Unidos geram para a América. Na avaliação da companhia, tudo isso
seria prejudicado pela imposição de restrições de importação. Por todos esses motivos, a maioria
das empresas pedirá também que USTR reconsidere as tarifas e opte pelo diálogo.

