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Facções usam cargas de pirarucu para traficar drogas na Amazô‐ nia

Peixes disfarçam cheiro da cocaína e da supermaconha transportada na tríplice
fronteira; Ministério da Justiça diz que avalia alternativas para região

 

Facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro

da Capital (PCC) têm
usado barcos com cargas de pirarucu e outros peixes para transportar grandes quantidades de
cocaína e skank, a “supermaconha”, pelos rios da Amazônia.
Os pacotes são colocados nos cascos dos barcos e em caixas de isopor, com gelo e peixe. O cheiro
camufla a droga dos cães farejadores. A atividade criminosa fez com que fosse suspensa a iniciativa do governo federal de apoio ao manejo do pirarucu na região de Tabatinga (AM), tríplice
fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, segundo o Ministério da Justiça. “A gente até ia trabalhar
com um incentivo à cadeia do pirarucu, mas deu um passo atrás justamente pela vulnerabilidade
das pessoas que estavam ali e que tinham inclusive medo de se envolver nessa cadeia por causa
do crime organizado”, disse Marta Machado, secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos da pasta.
O governo federal agora discute investir em novas cadeias produtivas na região, perto de onde
foram assassinados em 2022 o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira após conflitos com um grupo que estaria envolvido em pesca ilegal no Vale do Javari. Autoridades apontam
ainda queda drástica no turismo nos últimos anos, o que elevou o desafio de criar alternativas de
Peixes disfarçam cheiro da cocaína e da supermaconha transportada na tríplice
fronteira; Ministério da Justiça diz que avalia alternativas para região
Facções usam cargas de pirarucu para traficar drogas na Amazô‐
nia
O Estado de S. Paulo. · 01 set. 2025 · ÍTALO LO RE *REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA
PÚBLICA
01/09/2025, 08:33 Facções usam cargas de pirarucu para traficar drogas na Amazônia
https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo/?_gl=1*1f1se7p*_gcl_au*MzUwNzM5ODYxLjE3NDkxMjIxMTMuMTU0OTk4MTc3MS4xNzUyNjY0O… 1/3
renda à população. Alguns municípios, como Atalaia do Norte, têm índices de desenvolvimento
humano (IDH) bem abaixo da média do Estado.
“Tem ali ( no Alto Rio Solimões) forte convergência de tráfico de drogas com a cadeia do pirarucu, tem vários casos do peixe sendo transportado com droga dentro”, diz. As facções agem até
em comunidades indígenas e quilombolas.
O avanço do tráfico de drogas na Amazônia contribui ainda para impulsionar a degradação
ambiental na floresta, com alta do desmatamento e do garimpo em áreas protegidas.
AÇÃO NA MADRUGADA. Em julho, a Polícia Militar do Amazonas apreendeu 23 quilos de droga,
entre cocaína e skank, em meio ao peixe em um barco em Coari, no Médio Solimões. O prejuízo
foi de R$ 268,9 mil. A embarcação havia saído de Tefé com destino a Manaus.
A origem geralmente é o Peru ou a Colômbia. O transporte é feito por grupos não necessariamente de faccionados. O destino é a África e a Europa. Há dois anos, a Polícia Civil apreendeu 1,5
tonelada de cocaína no Estreito de Óbidos, oeste do Pará. A droga estava escondida embaixo de
uma carga de 12 toneladas de pirarucu.
Além de misturar entorpecentes na carga de peixe, é usada a “caletagem” para transportar quantidades maiores – os pacotes são acoplados no fundo dos barcos. “Quando é muita droga, trazem
no porão”, diz o major Francisco Camurça, coordenador de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública do Amazonas.
O governo do Amazonas tem quatro bases distribuídas em pontos estratégicos da malha fluvial,
como no Solimões. Nos rios do Pará, são outras duas, além de uma terceira em fase final de construção. No
mês passado, na base de Coari, policiais encontraram, em meio a 300 quilos de pirarucu, cerca de
oito quilos de skank. Três suspeitos foram presos.
Em 2024, foram apreendidas 43,25 toneladas de cocaína e maconha no Estado. Tratase do
recorde da série histórica, com alta de 50% ante 2023.
Desmatamento O avanço do tráfico na Amazônia contribui ainda para impulsionar a degradação
ambiental
Já em 2025, de janeiro a julho, foram apreendidas quase 25 toneladas de droga, o que aponta para
uma tendência de novo recorde até o fim do ano. No mesmo período de 2025, o Pará apreendeu
quase dez toneladas de cocaína e maconha, aumento de 37,7% ante 2024. O Estado havia registrado recorde nas apreensões no ano passado: 13 toneladas de droga.
‘FORTALECER COMUNIDADES’. Um desafio, diz Marta, é facilitar a denúncia de irregularidades
em territórios indígenas e preservar a integridade física dos povos. A secretária afirma que, além
de lançar o centro de acesso a direitos em Tabatinga, a Senad planeja uma espécie de índice para
medir a presença de organizações criminosas em territórios indígenas, com previsão de lançamento na Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), em novembro, em Belém. “A gente precisa proteger e fortalecer as comunidades locais para evitar o aliciamento, evitar a colaboração
com o crime”, diz.
Em Atalaia do Norte, perto de Tabatinga, no Vale do Javari, comunidades indígenas trabalham há
quase uma década com o manejo do pirarucu. Os projetos focam não só na pesca, mas na aproxi01/09/2025, 08:33 Facções usam cargas de pirarucu para traficar drogas na Amazônia
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mação entre comunidades ribeirinhas e indígenas para fortalecimento e proteção dos territórios.
São cerca de 69 aldeias indígenas e 17 comunidades ribeirinhas só na Terra Indígena Vale do
Javari e arredores, diz a prefeitura, que lançou há quatro anos uma iniciativa de manejo. Ela consiste em financiar expedições para que comunidades indígenas atuem na pesca manejada do
pirarucu. Os lucros ficam para as comunidades e povos tradicionais.
Parte das lideranças comunitárias critica o projeto, por não ver apoio às comunidades e à proteção ambiental. A complexidade logística também é um entrave – o investimento ao longo dos
três primeiros anos foi de ao menos R$ 900 mil.
Balanço do secretário de Governo e Comunicação Social de Atalaia, Rubeney de Castro Alves, diz
que o projeto-piloto já beneficiou quase 350 de 1,6 mil famílias indígenas do Vale do Javari. A
meta é que todas sejam atendidas até 2028.
Conforme o município, o projeto tem apoio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da
Coordenação de Proteção Etnoambiental e Desenvolvimento Sustentável Kanamari (Copeaka). •

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